O que é Historia e como devemos escrevê-la? Essas são as perguntas chave do discurso do Professor, Arqueólogo e Historiador Paul Veyne, escrito em 1975, para ministrar durante a aula inaugural de sua posse na cadeira de Cátedra de Historia Romana no Collège de France.
Seguindo uma linha historicista, Paul Veyne, rege seu discurso afirmando o caráter único, irrepetível e interpretativo dos fatos históricos, que deverá ser feito pelo historiador, pois esse não analisa ou descobre a História, mas sim busca a verdade nas informações das fontes e extrapola ao utilizar a interpretação para buscar o elo entre os dados.
[...] No entanto, numerosos fatos históricos são quase gêmeos idênticos – assemelham-se como duas gotas d’água; não deixam de ser, por causa disso, dois indivíduos distintos e, quando o historiador faz o recenseamento, considera-os como tais. Apenas aos olhos dos sociólogos eles recairiam numa e mesma categoria. Não é preciso dizer que a História consiste em amar o que jamais se verá duas vezes, e em amar duas vezes o que se revê ocasionalmente (Paul Veyne. O inventario das diferenças. Trad. Sônia Saizstein. São Paulo. Ed. Brasiliense:1983. p 40).
Partindo meio que na contra mão da discussão sobre o caráter histórico, Paul Veyne, foge a regra que dominava o seu tempo e não busca a resposta para a pergunta corrente, que era: pra que serve a Historia? Para ele, a História é definitivamente uma ciência que busca analisar a coerência e as constantes dos fatos históricos, pois para Veyne uma História sem constantes e sem conceitos é uma História narrativa, pobre em conteúdo, e não uma historia factual, e sim real.
O autor busca responder outra carência dos historiadores, a de como se escreve e analisa os acontecimentos históricos. E conclui:
[...] Um historiador não faz falarem os romanos, os tibetanos ou os nhambiquaras: ele fala em seu lugar, fala-nos deles, e conta-nos quais foram as realidades e as ideologias desses povos; fala sua própria língua, não a deles [...](Paul Veyne. O inventario das diferenças. Trad. Sônia Saizstein. São Paulo. Ed. Brasiliense:1983. p 23).
[...] a Historia não é a ciência do concreto[...](Paul Veyne. O inventario das diferenças. Trad. Sônia Saizstein. São Paulo. Ed. Brasiliense:1983. p 56).
[...] é mais importante ter ideias do que conhecer a verdade. [...] a verdade não é o mais elevado dos valores do conhecimento. (Paul Veyne. O inventario das diferenças. Trad. Sônia Saizstein. São Paulo. Ed. Brasiliense:1983. p 67 ).
Paul Veyne busca apoiar uma análise objetiva e também subjetiva da História e espanta-se com a constante busca pela conceituação do teor histórico, afirmando que essa caracterização fadará essa ciência a perda da originalidade.
[...] se a História impõe-se a tarefa de conceituar, a fim de delimitar a originalidade das coisas [...](Paul Veyne. O inventario das diferenças. Trad. Sônia Saizstein. São Paulo. Ed. Brasiliense:1983. p 48 ).
Pois, toda memória e todo acontecimento é História.
A palestra por ele ministrada foi publicada no ano de 1976 em forma de livro, inscrita sob o titulo: O Inventário das Diferenças, traduzido para o português por Sonia Saizstein e publicado pela editora Brasiliense em 1983. Uma obra destinada a todos os estudiosos e interessados em História e uma porta de abertura para os graduandos dessa ciência que estão dando os primeiros passos.

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